Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!"
Florbela Espanca
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O poema "Eu" de Florbela Espanca é um clássico da literatura portuguesa, explorando a identidade fragmentada, a solidão, a dor e a busca por si mesma, com o eu-lírico se descrevendo como uma figura perdida, uma sombra, crucificada pelo destino, mas também buscando no outro (o amor, o olhar) o reconhecimento e a construção de sua própria imagem, um tema recorrente no neorromantismo da autora.
Esses versos de Florbela Espanca fazem parte do famoso poema "Eu", que descreve um sentimento profundo de inadequação e solidão, a sensação de ser uma existência sonhada por alguém que veio ao mundo para encontrá-la, mas nunca a viu, refletindo a busca da autora por identidade e reconhecimento em sua própria vida.
Contexto e Significado
Identidade Perdida: A poetisa se vê como uma figura enigmática, uma visão, um sonho de outra pessoa, sugerindo que sua própria essência não é plenamente realizada ou reconhecida.
Inexistência no Mundo Real: A frase "nunca na vida me encontrou" enfatiza a falta de conexão e a sensação de ser invisível ou incompreendida por aqueles que a rodeiam, mesmo por quem a criou ou a desejou.
Os versos seguem a descrição de ser "a que passa e ninguém vê", "a que chama um triste sem o ser", e "a que chora sem saber porquê", construindo um retrato de uma alma sofrida e desajustada.
Poema "Eu", é um dos poemas mais conhecidos de Florbela Espanca, presente em seu Livro de Mágoas, explorando a dor, a busca por si mesma e a complexidade da alma feminina no início do século XX.
Expressam a angústia existencial de uma alma que se sente deslocada, uma imagem idealizada que não encontra seu reflexo no mundo real, um tema central na obra de Florbela Espanca.

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