“Há um mau gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse passo latente em passo real. Pelo prazer de uma coesão harmoniosa, pelo prazer avaro e permanentemente promissor de ter mas não gastar – eu não precisava do clímax ou da revolução ou de mais do que o pré-amor, que é tão mais feliz que o amor. A promessa me bastava? Uma promessa me bastava.” [p.28-29].
“Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.” [p.98]
*Trecho do livro: “A Paixão Segundo G.H.” Clarice Lispector
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"A Paixão Segundo G.H." de Clarice Lispector explora a desorganização do ser e o encontro com o inumano através de um trecho marcante sobre a barata, onde a protagonista, G.H., se depara com a essência primitiva da vida, experimentando o horror e o êxtase ao se ver conectada a essa criatura imemorial, perdendo o medo do "neutro" e do próprio ser, e buscando uma identidade que transcende a forma humana, tudo isso em meio à busca por uma verdade existencial e o medo da desorganização profunda.
Exemplos de trechos e temas
O Encontro com a Barata e a Inumanidade: G.H. encontra uma barata no quarto de sua empregada, desencadeando uma experiência de profundo mergulho no primal. Ela se vê menos que humana, buscando o inumano para se encontrar, percebendo que a barata é mais antiga e "dona" da Terra do que os humanos.
O Medo e a Desorganização: Há um medo constante do novo, do que não se entende. A personagem busca a desorganização para sair de sua vida anterior, mas teme perder-se. "Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?".
A Busca pela Essência: A narrativa é uma tentativa de dar sentido ao que viveu, de reproduzir (e não apenas expressar) o horror e a beleza do "triângulo incompreensível", a fonte da vida que está no neutro, no primitivo, no que foge à forma e à compreensão humana.
O Amor pelo Neutro: O santo, na visão de G.H., queima-se para amar o neutro, o que não é acréscimo, o que é igual. Assim como G.H. busca amar a barata, o "neutro", para encontrar a si mesma.
A Vida como um Processo: A atenção de G.H. torna-se a própria atenção da barata, a atenção de viver, inextricável do corpo, culminando na aceitação de que "a vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro".
O livro é uma exploração da experiência limite, da identidade e da relação do ser humano com a natureza mais crua, através da linguagem fragmentada e intensa de Clarice.

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